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Da pangeia à glocalização

Por Janaina de Aquino

  1. “Toda a terra” 
  2. “Vila global” 
  3.  “Think globally, act locally” 
  4. Da pangeia à glocalização

1. “Toda a terra” 

Acredita-se que os continentes antes formavam um único bloco de terra, um supercontinente conhecido como “Pangeia”[1] (ver Figura 1), em referência ao fato de os continentes estarem juntos, que exprime a ideia de totalidade, universalidade[2]

 
Figura 1. Há 250 milhões de anos, havia Pangeia, um supercontinente que cobria o globo de norte a sul. Daqui a outros 250 milhões de anos, os continentes se juntarão mais uma vez. Acima são três hipóteses a respeito de como ficaria o futuro supercontinente[3].

Milhões de anos se passaram e a Pangeia se fragmentou lentamente, formando os continentes políticos[4] conhecidos atualmente como América, Europa, Ásia, África, Oceania e Antártida. 

Desenvolvida pelo meteorologista alemão Alfred Wegener, no início do século XX[5], a teoria da Pangeia apoiava-se no contorno perfeito da costa americana com a africana. Considerada uma explicação insatisfatória, Wegener comparou fósseis de espécies encontrados em regiões do Brasil e da África para comprovar que essas espécies não teriam condições de atravessar o oceano para ir de um continente ao outro e, portanto, compartilharam, um dia, o mesmo solo. Além disso, o constante movimento das placas tectônicas da Terra mostra que, supostamente, todos os continentes voltarão a se unir em 250 milhões de anos, quando a humanidade provavelmente já terá sido extinta[6]


2. “Vila global” 

De acordo com Freitas, “[o] processo de globalização surgiu para atender ao capitalismo e, principalmente, os países desenvolvidos; de modo que pudessem buscar novos mercados, tendo em vista que o consumo interno encontrava-se saturado”. 

A partir da integração mundial, decorrente das inovações tecnológicas e do aumento do fluxo comercial mundial, a globalização também é associada à ideia de uma “vila global”, termo utilizado pela primeira vez, em inglês, pelo escritor canadense Marshall MC Luhan, ao dissertar sobre a mídia eletrônica. 

Figura 2. A globalização aproximou as nações e os mercados

Entretanto, para McMillan, na verdade, existe uma mistificação e até romantização de ambos os termos, que são vistos como algo benéfico, cosmopolita, “maneiro”. Segundo a autora, tornar-se “global” significa, aparentemente, tornar-se também vanguardista: muitas pessoas acreditam que a globalização é uma força grande, capaz de deixar todos unidos, transmitir a sensação de que os diferentes povos estão mais próximos. Mas, ao olhar a questão mais a fundo, McMillan afirma que a globalização nada mais é do que a busca das multinacionais pelo lucro. Além da conquista de novos mercados consumidores, a globalização exercida pelas empresas multinacionais também consiste em se instalar em outros países, em geral subdesenvolvidos ou em vias de desenvolvimento, para explorar mão de obra barata: 

Então, ao invés de fazer do mundo um lugar mais amigável, a globalização está criando ambientes como “Zonas de Processamento de Exportação”, lugares onde milhões de pessoas, principalmente mulheres, fabricam produtos que são então transferidos para os países mais desenvolvidos e serem vendidos a lucros substanciais (2001, sp.)[7]

Um dos aspectos da globalização envolve a velocidade do compartilhamento da informação, facilitada pela Internet. Uma notícia que antes levava 60 dias para atravessar o oceano e chegar ao Brasil, hoje é transmitida instantaneamente. Os aperfeiçoamentos e difusão da Internet têm possibilitado, ainda, o fortalecimento da via de comunicação de mão dupla, isto é, as informações não são apenas enviadas de um ponto a outro, sem que o público receptor não tenha chance de resposta ou que esta seja perdida devido à lentidão ou ineficiência de outros meios de comunicação mais antigos, como os correios. Qualquer mensagem emitida em um ponto do mundo poderá ser contestada ou retificada e enviada de volta, em tempo real, de outro ponto. Este “encurtamento” de distâncias e de período de tempo talvez seja uma das maiores contribuições da Internet. 

Através da grande quantidade de dados e informações armazenados na Internet, é possível também que se tenha acesso aos mais diversos comportamentos e modos de vida espalhados pelo mundo. Isso recai sobre outro aspecto da globalização, que é dos mercados. McMillan aponta que, 

[h]oje em dia, um vendedor não vê apenas o Canadá como o seu mercado, mas a América do Norte. Os mesmos produtos são vendidos em todo o mundo. Por outro lado, você pode ir a qualquer lugar do mundo e comprar as mesmas coisas[8] (2001, sp.).

A autora cita o caso do “McDonald’s”, que pode ser encontrado em vários partes do mundo, e ressalta que isto não gerou apenas um estilo de vida globalizada, mas padronizada. Ashenfelter e Jurajda relatam que tal é a força da lanchonete que o preço do “Big Mac”, um dos seus maiores e mais sanduíches, tem sido continuamente compilado pela revista britânica “the Economist” desde 1986, como uma forma de medir a paridade do poder aquisitivo entre os países (2001, p. 3)[9]. Isso significa que a vida das populações está se tornando mais uniforme em todos os lugares. McMillan lista algumas das formas que isso pode ser refletido em outras culturas: 

  • Maneira de vestir 
    • a. Todo mundo agora usa calça jeans ou de terno e gravata. Esta é uma maneira de vestir europeu, e assim nós estamos vendo o desaparecimento de formas locais de se vestir.
  • Estilo de vida 
    • Tornou-se comum que todos arranjem um emprego; estilos de vida alternativos estão desaparecendo. O consumismo desenfreado também está se tornando mais comum. 
  • Linguagem 
    • Todo mundo fala inglês atualmente. Em Israel, o povo não aprende hebraico ou árabe, o que faria sentido. Em vez disso, sua segunda língua é o inglês. 
    • Inglês é hoje a segunda língua mais falada no mundo. 
  • Mídia 
    • Padronização de mídia pode ser visto na TV e no rádio. A CNN está em todo lugar. Música americana e europeia está em toda parte. Muitas vezes, em outros países, o elevador estará tocando músicas dos Beatles ao invés de música local. 

Vistas sob esta ótica, essas constatações, decorrentes dos efeitos da globalização, podem eliminar o caráter romântico da globalização, segundo McMillan, que considera, ainda, que “a normalização da vida significa, de fato, a padronização do modo de vida americano”. A “vila global” seria, então, nada mais do que pequenas vilas norte-americanas espalhadas pelo mundo. 


Figura 3. Ilustração mostra garoto em uma “loja étnica”, onde experimenta peças de outros países

 3. “Think globally, act locally” 

Mas, as constatações de McMillan talvez não fujam à regra e são, na verdade, uma generalização, padronização do comportamento mundial. Cartier LaBouche[10], por exemplo, argumenta que, na sua busca pela dominação global, o “McDonald’s” trocou seu papel de agente da globalização para vítima da glocalização. Este último termo que surgiu da fusão das palavras “globalização” e “localização” após se observar a combinação desses fenômenos, exemplificados na experiência de LaBouche ao relatar que o “McDonald’s” em Kaohsiung, Taiwan, à primeira vista, parecia como qualquer outro: 

Telhado vermelho, arcos dourados e uma estátua sorridente de Ronald McDonald. O interior foi decorado como o McDonald's dos Estados Unidos - telhas vermelhas, azulejos brancos, mais arcos, e os cartazes das refeições de combo. 

No entanto, ao invés da “Coca-Cola”, as refeições eram acompanhadas por uma sopa quente de milho. Isso para o autor era uma “aberração”, e se perguntava o que acontecera com a “familiar” bebida gaseificada. Percebeu, então, que a bebida poderia ser disponibilizada, mas não era a norma nem onipresente entre a sociedade chinesa como nos Estados Unidos, e assumiu que a baixa popularidade da bebida naquela conjuntura social era devido à ideia de que comer alimentos frios faz mal para o estômago. 

De acordo com Borges, é precisamente neste contexto que “surge a ideia de glocali(s/z)ation[11], que consiste na prática de criar ou de distribuir produtos para um mercado global, mas adaptados para atender às necessidades de culturas e de legislações locais” (2010, p. 2). 

Trata-se de pensar globalmente, mas agir localmente. Ao trocar a “Coca-Cola”, tradicional bebida para acompanhar hambúrgueres do ponto de vista norte-americano, por uma sopa de milho na China, o McDonald’s não estaria deixando seu papel de vilão, como coloca LaBouche, para assumir o de vítima. Bem mais esperto do que isso, a rede mundial de lanchonetes estaria, na verdade, se vestindo da roupagem local chinesa para sobreviver neste novo mercado consumidor e, assim, garantir a que seus negócios continuem a prosperar. Algumas características foram mantidas, como o famoso arco de ouro, mas outras precisavam e deviam ser adaptadas para que o público consumidor chinês não hesitasse ou rejeitasse os produtos oferecidos pela rede. Esta prática tem sido adotada por empresas em todo o mundo, enquanto outras que a repelem têm registrado quedas amargas em seus lucros. 


4. Da pangeia à glocalização

O que esses três tópicos têm em comum? O princípio é simples, mas, obviamente, pode ser interpretado de várias maneiras. A interpretação aqui sugerida é de que, deste os primórdios da evolução terrestre, no caso da pangeia quando sequer existia civilização, certas “forças” convergem no sentido de afastar ou aproximar os territórios, sejam eles políticos ou geográficos. Em outras palavras, os continentes eram um só, que depois se separaram, mas vão voltar a se unir novamente. Mas, antes de se estarem fisicamente próximos novamente, esses continentes têm estreitado seus laços comerciais e culturais através do fenômeno da globalização. Entretanto, o mundo está voltando a se afastar, lentamente, com a busca de preservar suas particularidades regionais, ainda que globais, com o fenômeno da glocalização. Por fim, a tendência é seguir em direção a um outro fenômeno, o da localização, em que o produto ou serviço estrangeiro oferecido tem que parecer local. 

Nota-se que cada tópico tem a sua forma própria de evolução, e o que têm em comum é o fato de afetarem, direta ou indiretamente, a relação entre os povos, salvo no caso da Pangeia, e de constituírem uma fonte de incerteza para os consumidores quando fazem as suas escolhas. Pode-se considera-los, desta forma, agentes.

Para ilustrar essa situação, a postagem "Adeus Barbie, olá Fisimi" evidencia que, independente da natureza e função das centenas de milhares de produtos oferecidas nos mercados globais hoje, quer sejam alimentícios, quer sejam brinquedos, quer sejam automóveis, e até serviços da Internet, todos estão sujeitos a processos de ajustes e adequações culturais a partir do preciso momento em que cruzam as fronteiras do seu país de em direção a outro país de cultura e valores diferentes. Do mesmo modo, demonstra que o mundo não quer só consumir produtos estrangeiros. Esses produtos devem parecer locais. 

Por mais que o fenômeno da globalização tenha superado barreiras, desconstruído e reconstruído comportamentos e hábitos de consumo, aproximado e padronizado os povos de diferentes culturas, este falhará se, na sua essência, não reconhecer que os esses povos têm valores culturais e comportamentos de consumo diversos uns dos outros. 


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[1] Palavra originada do grego que significa “toda a terra” (“pan” = “todo” e “geia” = “terra”).
[2] Pangeia. Wikipedia. Disponível em: < http://pt.wikipedia.org/wiki/Pangeia>. Acessado em 07 de junho de 2011.
[3] Pangeia, o retorno. Revista Galileu Online. Disponível em: . Acessado em 07 de junho de 2011.
[4] Os continentes também podem ser conhecidos como físicos, ou “América”, “Eurafrásia”, “Austrália” e “Antártida”, que qualquer massa de terra mais extensa que a Groenlândia (isso se a Austrália não for considerada uma ilha). Continentes políticos são um conjunto de países em uma certa região do mundo que podem conter arquipélagos ou ilhas fora de seu território.
[5] FREITAS, Eduardo. Pangeia. Disponível em: <http://www.brasilescola.com/geografia/pangeia.htm>. Acessado em 07 de junho de 2011.
[6] Como se criaram os continentes atuais. Disponível em: . Acessado em 07 de junho de 2011.
[7] Texto em inglês: So, rather than making the world a more friendly place, globalization is leading to things such as "Export Processing Zones" - places where millions of people - mostly women - make products which are then shipped into the more developed countries and sold for a huge profit.
[8] Texto em inglês: Nowadays, a seller sees its market as not just Canada, but as North America. The same products are being sold all around the world. Conversely, you can go anywhere in the world and buy the same things; McDonalds is everywhere. This has led to global way of living, but it really has lead to the standardization of life.
[9] ASHENFELTER, Orley; JURAJDA, Štěpán. Cross-country Comparisons of Wage Rates: The Big Mac Index. Disponível em: . Acessado em 08 de junho de 2011.
[10] Labouche, Cartier. McDonald's: From Globalization to "Glocalization": From Villain to Victim. Disponível em: http://www.associatedcontent.com/article/2543841/mcdonalds_from_globalization_to_glocalization_p. Acessado em 08 de junho de 2011.
[11] A autora explica que adota a grafia “glocali(s/z)ation” “para que não haja preferência a nenhuma das variantes da língua inglesa”, no caso inglês britânico e norte-americano.


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