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Tradução Literária vs. Tradução Técnica: Uma dicotomia necessária?

Por Janaina de Aquino

Evoco Paulo Rónai1 para fazer um breve prelúdio acerca da dicotomia a ser discutida aqui:

Pensa-se geralmente que a tradução fiel é a tradução literal, e que, portanto, qualquer tradução que não seja literal é livre. A maioria dos candidatos a tradutor, ao serem convidados por uma editora, perguntam invariavelmente se a casa deseja traduções fiéis ou livres, literais ou literárias. Essa pergunta é feita na tácita suposição de que o requisito de fidelidade concerne apenas a um dos dois idiomas, aquele do qual se traduz. Uma versão literal isto é, fiel a apenas uma das duas línguas é impossível. (1956,  p. 2)


Como pode-se perceber, Rónai ilustra que, embora alguns insistem em endossar a dicotomia entre tradução literal e livre, elas estão mais próximas do que se pode imaginar. É fato que muitos tradutores, iniciantes ou não, ficam apreensivos tanto diante de um texto técnico quanto de um literário, pois a qualquer um dos dois o tradutor é exposto às “dúvidas  cruéis” que surgem no decorrer da tradução. Os exemplos mais freqüentes dessas dúvidas giram em torno de qual processo tradutório seguir, dos problemas de estilo, da infindável questão da equivalência. Etc., etc.
Seguindo Rónai, é certo que qualquer decisão tomada pelo tradutor deve estar precisamente preocupada com as duas línguas, isto é, com a LO (língua de origem) e a LM (língua meta). Isso implica dizer que se espera do tradutor não se ater somente às problemáticas que podem surgir na LO quando “transportadas” para a LM, mas que trabalhe com ambas conjuntamente. E mais: é importantíssimo levar em conta tanto as necessidades quanto as expectativas do público alvo no ato tradutório.  
Segundo Martins (1992, p. 49)2, “se o texto for tratado meramente como uma entidade autônoma, ao invés de uma série de procedimentos decisórios e uma situação de comunicação entre falantes, dificilmente se conseguirá entender a natureza do ato tradutório”. A autora discute ainda ser mister que o tradutor esteja consciente do ato comunicativo da tradução, afinal esse ato está estreitamente relacionado à própria formação do profissional que o tem influenciado, inclusive, mais ou menos suas tentativas de imparcialidade. “Uma abordagem com ênfase no processo torna-se, portanto, especialmente útil, pois faz incidir a reflexão e a análise crítica sobre as diversas etapas de uma tarefa tradutória”, argumenta Martins.
Minha insistência no processo/produto tradutório – enquanto a discussão do antagonismo entre tradução técnica e literária está aparentemente deixada de lado – deve-se ao fato de que acredito a priori ser mais relevante uma boa formação do tradutor. Dessa maneira, procuro deixar claro que um profissional ciente saberá, através da experiência e/ou da absorção da abordagem teórica, além de sua aplicação (a prática), quais decisões tomar diante de um texto técnico e de um literário. Em outras palavras, considero que ambas as vertentes oferecem obstáculos no processo tradutório, indo interferir finalmente no produto: se por um lado a má tradução de um romance famoso pode trazer severas reprovações de críticos e leitores, por outro um manual mau traduzido terá igualmente sérias consequências.
Por fim, posto que tradicionalmente a tradução literária frui de mais status do que a técnica, é também largamente difundido o consenso que a tradução literária, entre outras coisas, leve mais “fama” de complicada. Além disso, muitos acreditam que “a tradução técnica tem um nível mais elevado do que a literária, pelo menos no que diz respeito à “fidelidade”, como disse o professor Paulo Ottoni3. No entanto, não defendo nem essa tradição nem esse consenso. Pelo contrário, sinto-me apta a dizer que a dicotomia na tradução técnica/literária tende a desaparecer cada vez mais, somente restando diferenciar o objeto do processo tradutório e focalizar as divergências estruturais, contextuais, lingüísticas, etc. envolvidas no trabalho como um todo.
Nessa condição, para melhor esclarecer minha linha de pensamento, tomarei os exemplos duplamente vividos por Rónai tanto no âmbito da tradução literária quanto no da tradução técnica.
Para descobrir que um idioma, dentro de si mesmo, pode ter várias particularidades, Rónai teve que passar por uma “saia-justa” na sua primeira tradução de um texto técnico. Tratava-se de um extrato cadastral do húngaro – sua língua materna – que deveria ser traduzido para o francês. O autor relata que, embora as palavras “parecessem” húngaras, elas não faziam sentido e até as mais comuns eram usadas aleatoriamente. Ante seu desnorteamento, Rónai chegou mesmo a voltar ao escritório a fim de ver se, por acaso, não lhe teriam entregado o documento errado. Convencido do contrário, o autor enfim se deu conta de ter em mãos um texto genuinamente técnico. Uma vez nessa situação, ele teria que tomar uma nova postura e novas decisões. Dicionários bilíngues, por exemplo, tornaram-se insuficientes em seu trabalho já que cada área profissional demandava diferentes jargões, ou linguagem de especialidade, e nenhum dicionário era capaz de trazer explicações de todos eles. A solução foi encontrada em catálogos, folhetos de propaganda e anúncios. “Fato curioso”, diz Rónai, “eles me prestaram bons serviços, depois, não somente na versão de textos técnicos e comerciais, mas também na de obras exclusivamente literárias”.
Hoje, 50 anos depois, as circunstâncias não mudaram muito. A variação de termos técnicos continua e conquanto existam mais dicionários especializados em determinadas áreas, os termos técnicos muitas vezes caem em desuso por serem substituídos por outros devido ao avanço da tecnologia. Deste modo, o tradutor tem que estar constantemente se atualizando. Aproveito para incluir aqui, de forma breve, que se torna desnecessário a especialização do tradutor em uma determinada área. O ideal, com a progressiva globalização, é que o profissional seja competente em diversos setores. O próprio Rónai, pouco antes de sua experiência com textos técnicos, chegou a querer instruir-se de um grande número de palavras; o insucesso provou-o que isso era mais do que um esforço vão.

 

Penso que esta posição [da “inevitável” especialização] abre a perigosa possibilidade de chegarmos a níveis de especialização que tenhamos de depender de um mercado cada vez mais reduzido, além de nos forçar a constantes atualizações em áreas completamente afastadas da linguagem, tais como a “mecânica quântica” ou coisas do gênero. (1991, p. 151)4


Já familiarizado com a área, Rónai chegou à mesma conclusão que Santos assinalou acima, alguns anos depois: nenhum tradutor é capaz de compreender todo um acervo científico. Por isso, há preocupações muito maiores com o restante do objeto tradutório. A fidelidade, por exemplo. Um tradutor que se prender à transcrição palavra-por-palavra pode vir a esquecer de esclarecer informações não implícitas no texto de partida. Mais do que um intermediador, um comunicador entre duas línguas, o tradutor assume também a atitude de um crítico transmissor de técnicas, de idéias e de conhecimento.
Tomando lá e dando cá, acredito que um profissional sério e consciente de sua importância no processo de conectar línguas distintas, está automaticamente responsabilizado de se ater às menores nuances que julgar necessárias no desfecho do produto. Neste momento, pesa-se o que se tem por “fidelidade” na tradução. Partindo-se do princípio que essa “fidelidade” está relacionada à dicotomia “o original” e “a tradução”, como expôs Ottoni, recorro mais uma vez à Santos para expressá-la:

A simples compreensão não permite acessar à fonte por parte de todo o público potencial e esse acesso é tanto mais necessário quanto mais perigosas são as informações de Segunda mão, além do que nem sempre há disponibilidade, por parte de quem lê, para passar a informação adiante, inclusive pelo grau de consciência da presença da ambigüidade, mesmo nos textos referenciais. (1991:152-153)5

A outra lição do tradutor húngaro, na inter-relação dos procedimentos tradutórios de textos técnicos ou literários, foi sua prática com textos literários. Corrêa6, em uma de suas colaborações para a página virtual de O Estadão, comenta sobre as problemáticas na tradução de textos literários da língua francesa para o português do Brasil. Embora o país latino seja um dos maiores francófilos, poucas traduções foram fiéis aos originais. A obra em questão é “A Comédia Humana” do escritor Honorè Balzac. Segundo ela, “[o fato da obra constituir um trabalho para os tradutores] não se tratava apenas de ter os conhecimentos lingüísticos, mas de possuir uma técnica que conseguisse mesclar, de maneira quase inextricável, a realidade de uma época na ficção e, assim, compor, pouco a pouco, o mosaico balzaquiano”.
Logo, muitos tradutores que se “aventuraram” na tradução de A Comédia Humana, “apesar de seus esforços, distanciados no tempo, pertencendo a outras culturas, corriam sempre o risco de perder-se no meio das inúmeras conexões entre os personagens e as situações (...) Além disso, as traduções seriam realizadas por diferentes tradutores, que não se conheciam e que não tinham a preocupação de dar ao texto traduzido a unicidade do original. Por isso, colocar-se-ia a seguinte pergunta: seria possível aceitar uma tradução em volumes dispersos, sem nenhuma ligação, de A Comédia Humana, levando-se em conta a "tarefa gigantesca" com que se empenhou seu autor para torná-la inteira?”. À pergunta de Corrêa, Paulo Rónai respondeu plausivelmente por dois motivos bem simples.
Em primeiro lugar, Rónai já tinha experiência na área. Isso significa que ele pulou uma série de etapas que talvez outros posteriores tradutores tenham hesitado mais. Uma delas está, mais do que óbvio, na árdua decisão de se aproximar ou de se afastar do original. A situação foi mais favorável para Rónai, já introduzindo o segundo motivo, uma vez que tinha uma declarada admiração pelo escrito francês e um envolvimento mais do que íntimo com a língua francesa. Neste ponto, toco em um fator pertinente para a tradução técnica e literária, discursado pelo autor húngaro:

O tradutor deve conhecer todas as minúcias semelhantes da língua de seu original a fim de captar, além do conteúdo estritamente lógico, o to exato, os efeitos indiretos, as intenções ocultas do autor. Assim a fidelidade alcança-se muito menos pela tradução literal do que por uma substituição contínua. A arte do tradutor consiste justamente em saber quando pode verter e quando deve procurar equivalências. (...) Para ser fiel, o tradutor além do indispensável conhecimento dos dois idiomas, precisa sobretudo de imaginação. (1956, p. 21-23)

Ao mesmo tempo, é importante notar a ocorrência do mesmo fenômeno com os textos técnicos. É o caso do professor Ottoni que se apoiou em Rónai para defender a fidelidade do texto técnico superior ao literário: o primeiro exige uma maior necessidade no envolvimento do estilo, além de não participar ativamente na transformação e formação de significados. Além disso, como propôs Azenha7, “é possível evidenciar a importância da consideração de aspectos culturais inclusive na tradução de textos técnicos. Sob essa ótica, o texto técnico passa a ser uma estrutura multidimensional”. O segundo, ao contrário, está mais preso no processo de alteração significados, constituindo assim a dicotomia entre os dois tipos de tradução. Posso deduzir, portanto, com suas devidas disparidades, que as crendices mais convictas são superadas: ambos os tipos de tradução exigem que o tradutor não deve apenas conhecer as línguas em questão, mas também possuir uma considerável noção técnica, linguística e cultural à respeito do assunto.



 1 Em RONAI, Paulo. (1956) Escola de Tradutores, Rio de Janeiro. 2ª edição (revista e aumentada).
2 Em MARTINS, Marcia do Amaral Peixoto.  Tra. Ling. Apl., Campinas, (20):49-54 Jul/Dez. 1992
3 Paulo Ottoni. Professor Titular do Instituto de Estudos da Linguagem Departamento de Lingüística Aplicada - Universidade Estadual de Campinas.
4 Em SANTOS, Henrique Celso Jesuino dos. In: O ensino da tradução técnica a experts de outras áreas concebido como a “obra aberta”, exercício de interdisciplinaridade universitária e difusão democrática do conhecimento: Relato de uma Experiência e Contribuições para o Pensamento Crítico de um Curso Superior de Tradução. Bahia. 1991:147-155.
5 ibid., ibidem.
6 CORRÊA, Mônica Cristina. Mestrado em Literatura Francesa pela Universidade de São Paulo. Tradutora e coordenadora de suplementos de cultura em jornais e revistas brasileiras.
7 Em AZENHA, João. Introdução. In: Tradução Técnica e condicionantes culturais. (?: 11)