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Pixar, Disney e as adaptações culturais


Por Janaina de Aquino

Os filmes da Disney e da Pixar, além de famosos pelas histórias que têm fascinado crianças e adultos do mundo inteiro, chamam atenção pela forma como são alterados para a atender o público internacional.

Em um vídeo publicado esta semana, as produtoras explicam as adaptações de animações como Up - Altas aventuras, Ratatouille Divertida Mente, entre outras, que, incluem desde mudanças  na linguagem oral, como é notável na dublagem, quanto visual.

Por exemplo, o expectador do filme Divertida Mente (2015) em Israel (ouvirá e) verá a cena abaixo em hebraico, idioma nativo do país.


O design do título de Toy Story 3 (2010) em russo também é ligeiramente diferente daquela apresenta em inglês. Repare que, em vez do número 3, aparece o texto "Toy Story 3: Príbeh hracek", que significa a tradução de toy story. Um fato curioso é que os russos simplesmente amam Shrek e A Era do Gelo, mas não deram muita bola para a terceira versão da história que conta as aventuras de Buzz e Woody. A razão? As primeiras animações da franquia foram lançadas na década de 1990, isto é, antes do cinema se popularizar no país, fazendo com que perdessem o meado da história. Sendo assim, o filme com protagonistas de brinquedo hoje é visto como "coisa de criança".


Tal cuidado com a adaptação é similar em quase todos os filmes do catálogo da Pixar. É o caso da animação Ratatouille (2007), em que, nas cenas abaixo reproduzidas (em inglês e francês), demonstra como o visual de um filme muda dependendo de onde ele é visto, evidenciando, assim, o cuidado dado à criação de múltiplas versões de um mesmo filme.




Outro exemplo é a capa do livro de Ellie, em Up - Altas aventuras (2009), que não foi traduzido apenas para francês, mas japonês, polonês, russo, espanhol, provavelmente a partir da versão original em inglês:



A versão em português no Brasil, porém, não foi adaptada! Nesta cena (a partir do minuto 3'11''), Ellie mostra o livro, com capa em inglês, enquanto fala, na dublagem, "Meu livro de aventuras". O mesmo ocorre na sequência, que mostra um mapa da América do Sul, uma página onde se lê "Paradise Falls, a land lost in time" e em outra "Stuff I'm going to do", com as devidas explicações em português, apesar da perda do elemento visual. Isto não é problema, pois a dublagem explica o que o texto quer dizer.

Confesso que nunca o filme, por isso, em outra cena, quando Carl revisita o livro de Ellie, há uma página com uma nota em inglês (abaixo). Carl/expectador apenas a lê, sem qualquer recurso verbal para traduzir o significado do conteúdo da nota. Se você souber como esta passagem foi solucionada, deixe a dica nos comentários!


Por um lado, embora a Pixar optara por deixar esses trechos em seu formato original, suprimindo a "lacuna" com o recurso de dublagem, por outro ela soluciona o "problema" em outro momento do filme com um elemento visual que não se trata exatamente da tradução em seu sentido literal, mas da substituição do texto por imagens. É o que vemos nas cenas em que Carl e Ellie começam a juntar dinheiro para ir para o Paraíso das Cachoeiras. A jarra que serve de cofrinho exibe uma etiqueta com os dizeres em inglês "Paradise Falls"; já versão internacional vem com um desenho retratando o lugar:


Ao invés de traduzir o Paraíso das Cachoeiras em diferentes idiomas, a imagem possibilita que o lugar seja lido "universalmente". Compare a cena da jarra com aquela da infância com aquela em que Ellie colou a foto de uma casinha no topo das cachoeiras e com a do quadro que ela faz do lugar, quando adulta.




Esta tática mostra que o expectador é induzido, no decorrer do filme, a associar a qual lugar a etiqueta se refere, sem a necessidade de tradução explícita.

Este é o mesmo tratamento dado à animação Universidade Monstros (2013), o nome dos "Jogos de Susto" presente na animação foi "traduzido" por letras em grego:



...Mas, mais vez, o Brasil ficou de fora. A versão exibida no país (confira um trecho aqui), manteve o nome em inglês. De todo modo, tal qual no caso de Up, a Pixar busca contornar o problema com a troca do texto por imagens, como na cena dos cupcakes do monstrengo Randall. 


Convenhamos que parece inviável montar uma frase que traduza "be my pal" ("seja meu parceiro", em português) nos mais de 30 idiomas em que a animação foi traduzida (aliás, veja uma compilação maravilhosa do filme anterior de um idioma para outro aqui), portanto, a escolha é plausível para o público internacional. O que este perde, contudo, é a brincadeira da cena abaixo, em que o embaralhamento das letras forma a palavra "lame", muito comum nos EUA para debochar de alguém, em especial, devido ao seu fraco desempenho.


Nada disso anula os esforços gerais da Pixar em fazer mudanças interessantes nos seus filmes para que sejam melhor recebidos no seu país de destino. O que vimos até agora foram exemplos que se enquadram na estratégia de internacionalização, a qual consiste basicamente em oferecer um único produto final em múltiplos mercados sem a necessidade de alterações substanciais ou mesmo pontuais. Quando se deseja que aspectos específicos de uma cultura sejam atrelados ao produto a ponto de serem reconhecidos em uma determinada cultura, adota-se, então, a estratégia de localização. 

Por exemplo, os animadores desenharam pedacinhos de pimentão verde na versão japonesa de Divertida Mente (), uma vez que, em geral, brócolis, da versão original, é muito apreciado no Japão. Isto demonstra que, caso brócolis tivesse sido mantido, a aversão de Riley, personagem principal da animação, não seria compreendida pelas crianças japonesas.



Em outra cena, o pai de Riley, personagem principal, pode pensar em uma partida de hóquei ou de futebol, sendo que o segundo está disponível para versão internacional por ser um esporte mais popular em outras partes do mundo do que o primeiro.   


Ao todo, foram feitas 28 mudanças gráficas em 45 trechos de todas as versões de Divertida Mente: "em uma cena em que Bing Bong aponta para uma placa, os animadores chegaram a mudar a ordem em que ele mostra as letras (da direita para a esquerda e da esquerda para a direita) para acomodar o movimento para outras línguas".

Como observa este artigo do Omelete, "adaptações culturais são comuns em filmes de grande distribuição mundial, principalmente em animações e produções focadas no público jovem, como o caderninho de Steve Rogers em Capitão América: O Soldado Invernal. A Disney chegou a fazer uma enquete para saber quais eram os elementos culturais mais relevantes para cada país, deixando a versão brasileira com Mamonas Assassinas, Xuxa e Chaves entre as referências". As modicacoes de cada país foram registradas pelo Mega Curioso.



Para assistir o vídeo da Pixar no qual este texto se baseou, clique aqui.

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