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8 curiosidades sobre Mulheres e Tradução no Dia Internacional da Mulher



✎ por Janaina de Aquino

1 Sherry Simon, em seu livro Gender in Translation: Cultural Identity and the Politics of Trasmission [Gênero na tradução: identidade cultural e a política da transmissão], de 1996,  considerou a Renascença inglesa como o momento em que as mulheres, através da tradução, começaram a se fazer audíveis como intelectuais. Disse ela: 

Durante o Renascimento, particularmente na Inglaterra, a tradução era um dos únicos modos de atividade intelectual considerado apropriado para as mulheres. Somos levadas a imaginar se a tradução condenou as mulheres às margens do discurso ou se, ao contrário, as resgatou de um silêncio imposto. Devemos entender que a tradução continuou como uma forma de atividade totalmente marginal, acrescentando nada aos círculos intelectuais em que foi introduzida? Ou a tradução forneceu às mulheres uma oportunidade socialmente sancionada de exercerem influência? Enquanto alguns comentadores assumem que esse trabalho teve um impacto pequeno, outros viram na tradução uma contribuição real para a vida espiritual da época e um local a partir do qual normas dominantes puderam ser desafiadas e resistidas. (1996, p.46)

Enquanto, na Inglaterra, a entrada das mulheres no mundo da intelectualidade ocorreu durante o Renascimento, no Brasil isso se deu muito mais tarde. No entanto, a forma de entrada foi a mesma: via tradução. As renascentistas inglesas dedicaram-se à tradução de textos religiosos, enquanto as tradutoras brasileiras dos anos 1930 e 1940, por seu turno, dedicaram-se à tradução de textos seculares, uma vez que o momento de interesse por esse tipo de texto já havia sido suplantando, tendo cabido fundamentalmente aos clérigos do sexo masculino esse tipo de tradução, ainda no século XVI.

2 Segundo dados da campanha "Women in Translation", criada pela tradutora e blogueira Meytal Radzinski, e que resultou no banco de dados Three Percent Translation, apenas cerca de 30% da literatura traduzida para o inglês é escrita por mulheres, uma porcentagem com pouca variação nos últimos três anos.

3 O Dia das Mulheres na Tradução é celebrado no exterior no mês de agosto, com descontos de livros em várias livrarias ao redor do globo, além de palestras para conscientizar sobre a baixa representatividade de obras traduzidas ou escritas por mulheres.

4 Existe um prêmio para mulheres na tradução: é o Warwick Prize for Women in Translation, que será entregue em novembro de 2017 para a melhor obra de ficção para crianças ou jovens escrito por uma mulher. A tradução pode ser feita tanto por tradutores de ambos os sexos, o(a) qual compartilhará o valor de 1000 libras do prêmio com a autora; caso esta já tenha falecido, o prêmio será integralmente vertido para o tradutor ou da tradutora ganhador(a). O objetivo do prêmio é combater o desequilíbrio de gênero na literatura traduzida e dar maior visibilidade às vozes femininas entre os leitores do Reino Unido e Irlanda. Para se ter uma ideia da urgência desse tipo de iniciativa, O Prêmio de Ficção Estrangeira Independente já foi laureado 21 vezes, porém somente duas delas foram para  mulheres. Saiba mais sobre o prêmio aqui (em inglês).

Durante um painel organizado pela London Metropolitan University em 21 de abril de 2016, Sara Viscardi, uma aluna do programa de pós-graduação e que comanda sua própria empresa de tradução de arte, chamou atenção para o fato de que embora a grande maioria dos tradutores iniciantes seja formada por mulheres, a composição do gênero na profissão muda no topo.

6 Clarice Lispector é uma das escritoras brasileiras mais traduzidas no exterior. Ela mesma iniciou sua carreira como tradutora de textos científicos para revistas. Lispector dominava pelo menos sete idiomas: português, inglês, francês e espanhol, fluentemente; hebraico e iídiche, com alguma fluência; e russo, com pouca fluência levada da infância. Como tradutora para o português, entretanto, utilizou somente o inglês, o francês e o espanhol. A maior parte de sua obra é versada para o francês, cuja visibilidade se deu graças à crítica de uma estudiosa feminista francesa, Hélène Cixous, com a publicação de Vivre l’orange na editora Des Femmes em 1979. Num artigo da Quinzaine Littéraire de 1987, Cixous diz de Lispector : 

“Há 10 anos que gosto de Clarice Lispector e que eu a leio. Só pararei de homenageá-la quando ela for escutada e divulgada como o merece.” 

No total, a obra de Clarice Lispector recebeu mais de 200 traduções para mais de 10 idiomas, do tcheco ao japonês, sendo mais de 179 traduções integrais de livros e 25 de contos publicados em periódicos. 

7 A organização sem fins lucrativos atrelada à Cambridge e fundada em 2011, Found in Translation, sediada em Massachussets, Estados Unidos, proporciona a mulheres sem-teto e de baixa renda, porém bilíngues, acesso a um programa de treinamento para intérpretes na área médica como um instrumento para transformar aquilo que geralmente as estigmatiza, isto é, sua herança linguística e cultural, em um ativo valioso no mercado de trabalho. O programa é gratuito e inclui serviços como creche no local, auxílio-transporte e mentoria, além de encaminhar as participantes para trabalhos que paguem entre 20 e 50 dólares a hora em uma das quatro profissões que mais cresce nos EUA. A iniciativa visa, além de oferecer mais profissionais para os hospitais locais, combater a má distribuição de renda concentrada em gênero, raça e etnia que acaba por aprisionar talentos bilíngues em comunidades carentes, onde as barreiras socieconômicas impedem o crescimento profissional.  

8 Seis blogues de tradução por tradutoras brasileiras que você precisa conhecer agora:


9 Bônus Oito tradutoras e intérpretes com papeis importantes na história (e você provavelmente não sabia): 
  • Malinche (1496 – 1529 ou 1551), também conhecida como Malintzin e Doña Marina, foi uma indígena (certamente da etnia Nahua) da costa do Golfo do México, que acompanhou Hernán Cortés e teve um papel decisivo no auxílio da Conquista do México, uma vez que falava ao menos três línguas e atuava como tradutora (e, dizem, amante de Cortés). A expressão la malinche! às vezes é utilizada no sentido de tradutor, traidor! no México e em países adjacentes. Isto é, universalmente, quando e se alguém atuar como intérprete ou tradutor, servindo de ponte entre dois ou mais grupos culturais e linguísticos, presumidamente, ele ou ela pode ou deve ser tido como um inimigo e traidor de uma das partes, tratando-se nestas ocasiões do conceito clássico da confusão da mensagem com o mensageiro. Para muitos mexicanos, Malinche foi uma traidora pois passou para o lado espanhol. (Fonte.)
  • Krotoa, ou Eva (c. 1643 – 29 de julho de 1674), era uma mulher pertencente ao Koi, grupo étnico nômade do sudoeste da África, especificamente de Botsuana e Namíbia, que trabalhou como intérprete para os holandeses durante o estabelecimento do Colônia do Cabo (antes Cidade do Cabo). Ela é conhecida como uma das mulheres sobre a qual mais se tem escrito a respeito na história sul africana; seu nome aparece em periódicos desde o ano de 1652, como da Companhia Holandesa das Índias Ocidentais.
  • Sarah Winnemucca (1844 – 1891), originária da tribo paiute do noroeste de Nevada, EUA, trabalhou de 1866 a 1875 como intérprete para o exército. Em 1878, serviu como tradutora na guerra de Bannock(Fonte.) De história controversa, por trabalhar de um lado como intérprete para o exército e para o outro como ativista da causa indígena, Winnemucca foi a primeira nativa norte-americana a publicar um livro, onde denunciava os maus tratos ao seu povo. (Fonte.)
  • Na Romênia comunista dos anos 1980, Irina Margareta Nistoruma jovem tradutora, tronou-se uma voz inusitada em nome da liberdade. Nistor dublou, ilegalmente, centenas de filmes estrangeiros, distribuídos em fitas VHS, que acabou transformando celebridades de filmes B em heróis e heroínas. (Fonte.)
  • Sacagawea, da tribo Shoshone, foi intérprete, guia e única mulher  da expedição Lewis e Clark, enquanto carregou seu filho às costas durante dois anos. Os Shoshones possuíam cavalos necessários à expedição e graças ao trabalho da cadeia de intérpretes (Sacagawea falava em shoshone com os membros da sua tribo, traduzia as mensagens em hidatsa ao marido, que por sua vez traduzia-as para inglês) a expedição conseguiu adquirir os animais que necessitava para continuar o seu percurso. A presença de Sacagawea revelou-se central para apaziguar os ânimos das tribos índias do Noroeste, que a expedição viria a encontrar no percurso. A maior parte destas tribos não tinha nunca estabelecido contactos com europeus, mas a presença de uma mulher com uma criança foi vista pelos índios como uma sinal que aquele grupo de homens vinha em paz, segundo o que se pode ler nas notas de Clark. (Fonte.)
  • A habilidade de Ch'iao Kuo, também conhecida como Princess Red Bird, como intérprete entre mandarim e o dialeto falado pelo seu povo, hsien, foi crucial para ajudar sua tribo a se tornar aliada e amiga do lado exército chinês. 
  • Nos anos 1920, Grace Bagnato foi a primeira mulher imigrante a receber autorização para trabalhar como intérprete de tribunal na cidade de Toronto. Filha de italianos e mãe de treze filhos, Grace também dirigia um carro, incomum à época, e ajudava com seus dons linguísticos (falava seis idiomas) ao intermediar assuntos entre comunidades ucranianas, alemãs, judias, polonesas e as autoridades locais. Existe um filme sobre sua biografia, An Act of Grace (Um ato de Graça, em alusão ao seu nome em inglês), dirigido pos Sylvia Sweeney.
  • Émilie du Châtelet (Paris, 17 de dezembro de 1706 — Lunéville, 10 de setembro de 1749) foi  uma tradutora, matemática, física e filósofa. No ano em que faleceu, du Châtelet completou uma obra que é tida como o auge de suas realizações no campo científico, isto é, a sua tradução ao idioma francês, com seus próprios comentários, da celebrada Principia Mathematica, de Newton, inclusive a sua noção de conservação de energia que ela obteve dos princípios de mecânica contidos na obra por ela traduzida. Hoje em dia a sua tradução permanece como a tradução padrão em francês. (Fonte.)

Fontes
1, 24, 5, 6 7.

Um comentário

tradi disse...

Parabéns à escritora desse post! Não podia haver melhor homenagem que traz à tona nomes de personagens valentes, escritoras, tradutoras e MULHERES!
Precisamos ter mais lembranças assim, pois a tradução, tarefa-renúncia tão importante no contexto mundial de migração e imigração certamente tem servido para aliviar muito sofrimento e abrir caminhos para um novo lar, uma nova morada! À frente dessa tarefa-missão, muitas mulheres anônimas têm traduzido as esperanças de quem não fala a língua da nova pátria.

Um abraço à escritora!

Ana Schäffer

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