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Palestra: "O Serviço de Tradução da Comissão Europeia"

No dia 24 de outubro, a partir das 14h, Dr. Klaus Meyer-Koeken, chefe do Departamento de língua inglesa na Direção-Geral da Tradução da Comissão Europeia, ministrará uma palestra intitulada "O Serviço de Tradução da Comissão Europeia" durante o III Colóquio de Tradução e Terminologia da Universidade de São Paulo. Veja no cartaz a seguir maiores informações sobre o palestrante e o conteúdo da palestra ou acesse http://citrat.fflch.usp.br/node/152.



E eu de cá que, infelizmente, não poderei comparecer a esse glorioso evento, fico me perguntando se seria também discutida ou se alguém levantaria a questão apontada por Pym sobre o fato de que, dentro do âmbito da União Europeia, aparentemente, o inglês está se tornando a língua franca e os profissionais de língua inglesa revisores, em vez de tradutores.

Segundo Pym, muito provavelmente a instituição de uma língua internacional, considerada uma forma extrema da internacionalização, é decorrente da globalização econômica. Para o autor, contudo, não há nada de errado que seja o inglês a atual língua franca já que este processo poderia ter naturalmente escolhido qualquer outra língua com maior vantagem internacional no início da globalização econômica, nos anos 1960 ou 1970, como foi o caso do francês e do latim em outras épocas.



Esse fenômeno é decorrente internacionalização, cujo processo inclui a redução de gastos no processo de localização e a ampliação do leque de países onde o produto pode ser comercializado ao utilizar um único idioma, dito "internacional". Em termos linguísticos, de acordo com Pym, uma das consequências é que a criação de um modelo básico, desenvolvido para ser empregado em todos potenciais idiomas de destino, tende a controlar o processo de tradução (2004, p. 37). Esse controle tem sido notadamente observado nos textos da União Europeia.

O problema é que qualquer produto submetido a uma versão internacionalizada tende a ser em inglês ou em outro idioma que não seja a língua materna da empresa que exporta o produto, ou simplesmente do autor de um texto. Isso significa que a quantidade de produtos traduzidos para o inglês é inversamente proporcional aos produtos traduzidos do inglês¹. Isso não significa, contudo, que o inglês seja uma língua presente em todos os cantos do mundo, já que, se assim fosse, não seria necessário localizar produtos para outros idiomas (PYM, 2004, p. 38). Na verdade, este fato demonstra que, da mesma forma que a globalização não atingiu todas as nações do planeta, mas apenas aquelas privilegiadas pelos tratados internacionais e pelo desenvolvimento econômico, a internacionalização não faz sentido sem o processo de localização.


Embora Pym afirme que o inglês seja a primeira ou principal língua da produção textual técnica destinada à distribuição internacional, ressalta que já é possível encontrar boa parte dessa produção localizada para o consumidor/usuário final. Por exemplo, quando um usuário baixa um programa pela internet para o computador, será mostrada uma lista de todos os idiomas em que o programa está disponível e a opção de configurações de data e hora que deseja que o programa use. Também é cada vez mais comum que o primeiro idioma listado pelo programa seja o mesmo do usuário, detectado a partir da identificação do endereço de IP². Por conseguinte, será oferecida a opção do idioma espanhol para um usuário que baixar o programa na Espanha e do português do Brasil para um usuário que baixar o programa a em uma cidade brasileira. 

No entanto, considerando que um falante de espanhol pode morar no Brasil, além do português será listado o espanhol, bem como uma série de variantes desse idioma, falado em outros países além da Espanha. Assim, o programa pode oferecer 16 variantes regionais do inglês, 21 do espanhol , 2 do português* etc. conforme mostra a figura abaixo. 


Programa da “Microsoft” oferece uma série de variantes
como opção de idioma para usuários dos seus programas.

Embora a diferença entre essas variantes não seja crucial para o funcionamento ou propósito do programa, a intenção do fabricante é conquistar seu consumidor/usuário pela língua. Se o produto tivesse sido simplesmente internacionalizado para o inglês, os usuários não falantes do idioma poderiam deixar de usar o programa. Por essa razão, a opção por não internacionalizar conduz à estratégia de localização, a qual se revela um passo importante no sentido de considerar as especificidades locais dos usuários e garantir a comercialização do produto em um determinado locale.

Notas 
¹ Pym relata que apenas 2 a 4% dos livros publicados nos Estados Unidos ou Reino Unido são traduzidos, enquanto que na França essa percentagem é de 15 a 18%, de 11 a 14% na Alemanha, cerca de 35% na Itália e de 25 a 26% na Espanha, segundo dados coletados entre 1982 e 1985 (apud Ganne e Minon, 1992). Dados da Unesco também indicam que o inglês era a língua de partida de uma média de 41% das traduções de 1978 a 1980 (2004, p. 38).
² O endereço IP, de forma genérica, é um endereço que indica o local de um nó em uma rede local ou pública.O endereço também pode indicar em qual região ou país o usuário está conectado, eis porque, quando o usuário visita uma página online internacional, os anúncios dessa página aparecem no idioma nativo do usuário enquanto o conteúdo geral permanece no idioma estrangeiro. Da mesma forma, quem usa o navegador da Internet do Google, o “Google Chrome”, não raro, ao visitar uma página internacional, aparecerá a ferramenta de tradução automática no canto superior da tela sugerindo a tradução da página em idioma estrangeiro para o idioma nativo do usuário.
³ Sobre o assunto, Pym contabilizou 13 variantes do inglês e 20 do espanhol em 2004. Ao conferir esses dados, sete anos depois, percebeu-se que a Microsoft adicionou mais três variantes para o inglês e 1 para o espanhol.
*Note-se que, embora conte com mais de 240 milhões de falantes e seja a quinta língua mais falada no mundo e usada na Internet, o programa registrou apenas duas variantes para língua portuguesa, o que pode sugerir a marginalização dos demais países que falam esse idioma ou, em uma perspectiva menos dramática, a falta de representatividade consumidora do mercado-alvo.

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