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Postagem nº. 100: Repensando o Tratado de Paz da Tradução


Devo confessar que, neste exato momento, estou abismada.  Eis a razão:

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Tudo isso começou porque um integrante de um grupo de tradução que sigo via email perguntou como se escreveria “número” em inglês: “Nr.” (de onde ele tirou isso?) ou “No.”. Eu saberia a resposta (mais provável), porque embora recém-formada, tive a oportunidade de discutir isso com um excelente professor  quando nos ensinava sobre tradução de textos jurídicos. O problema é que, como estava contando a uma professora e alguns colegas, toda vez que surge um tópico pedindo ajuda, os participantes costumam discutir as sugestões dos outros participantes, esquecendo que quem tem que avaliar a melhor sugestão para si é o próprio tradutor, esse que vive de fazer escolhas.

No início, imaginei que isso fosse acontecer uma vez ou outra e em tópicos relacionados a perguntas sobre valores praticados em serviços de tradução, mas não importa, basta que as opiniões sejam divergentes e, abre alas, que as farpas querem passar! Assim, como disse na outra postagem, a impressão que tenho é que a sobreposição (ou subestimação) de tradutores veteranos sobre calouros causa retração dos últimos, gerando comentários do tipo:

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Algo que pude comprovar neste grupo é que o tradutor, de fato, é invisível: depois que comecei há acompanhá-lo, há pouco mais de dois meses, surpreendi-me com a quantidade de tradutores anônimos por ai. É um universo enorme, acreditem.



Para ilustrar, imagine que você, antes de se sentar horas a fio perante o computador para mais um trabalho de tradução, vá toda manhã para aquela padaria perto da sua casa comprar pãezinhos quentinhos. A sua rotina faz com que encontre diariamente, no mesmo horário e percurso, pessoas de rostos conhecidos. Entre elas, há aquele senhor, com ar de intelectual (“Quiçá é um professor?”, você pensa, e conclui: “Universitário, porque com este porte...”) que, devido à familiaridade de todas as manhãs, já lhe cumprimenta com um amável sorriso e deseja um “bom dia” antes de se despedirem. O que você sequer desconfia é que aquele senhor é seu colega de profissão (isso é o que chamo de “tradutor invisível”!). Ao chegar em casa, após tomar café e se alongar antes de iniciar a jornada de traduzir, abre o email do grupo de tradução que se inscreveu há alguns meses, afinal é novato na área e quer aprender com os “grandes mestres”. Querido leitor, a propaganda de margarina acabou. O que você vai encontrar é uma mensagem como a primeira acima reproduzida. Foi esse o meu caso, a razão do meu pasmo e meus espasmos. 

Felizmente, a mensagem não era para mim, pois não participei da seção de sugestões e por isso não posso dizer que a carapuça serviu. Infelizmente, era para “todo o bando de incompetentes, metidos a entendidos, pseudo-ofendidos, que ainda 'não tiraram a fralda tradutória'”, então ainda dá tempo de experimentar para ver se a carapuça é mesmo meu número. A parte boa dessa história é que esse tipo de manifestação, que vai gerar muitas outras reações, me fez aprender outra coisa com esse grupo: com tal comportamento, é bom que alguns tradutores permaneçam bem invisíveis mesmo. Ninguém vai querer saber que aquele senhor gentil da padaria é um brutamonte que, se souber que você ainda usa as fraldas tradutórias, aparentemente o tratamento será outro: "amigos, amigos, tradução à parte".

E já que tudo isso começou por causa de "números", vale assinalar que esta é a postagem número 100, a qual gostaria que fosse simbólica. Pensei sobre (i)números temas que poderia discutir para homenagear a nossa profissão. No final das contas, acho que essa discussão caiu como uma luva. Caso contrário, como continuar a discussão do aperfeiçoamento profissional dos tradutores se não somos ainda capazes de nos aperfeiçoar como humanos? Vale lembrar que há alguns anos, escrevi sobre o Tratato de paz da tradução, especificamente sobre a “guerra” entre tradutores e leitores de traduções. Parece-me agora ser uma perda de tempo. O que precisamos, primeiro, é ficar de bem com nossos próprios semelhantes.

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