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Morre o escritor brasileiro João Ubaldo Ribeiro, Prêmio Camões de literatura e membro da Academia Brasileira de Letr


Morreu, na sua residência em 18 de julho 2014, no Rio de Janeiro, aos 73 anos, o escritor brasileiro João Ubaldo Ribeiro, vítima de embolia pulmonar. Romancista, cronista, jornalista e tradutor, João Ubaldo foi vencedor do Prêmio Camões em 2008, entre muitas outras distinções literárias. Considerado o maior guardião da língua portuguesa, o autor de Sargento Getúlio e Viva o Povo Brasileiro também é referência em diversos estudos acadêmicos sobre o processo e desafios de autotradução. Mediante, primeiro por impolgação e depois por falta de opção, João Ubaldo foi movido pelo desejo de ver seu trabalho acessível em inglês a qualquer custo, lançando-se na difícil e gloriosa tarefa de se autotraduzir, cujo esforço teve seu mérito - e seus escorregões. Eu mesma, durante a gradução do curso de Tradução na Universidade de Brasília, passei pela experiência de traduzi-lo e de comparar sua autotradução com o original. Quem quiser saber mais sobre o assunto, leia os estudos acadêmicos abaixo listados. Entendo o que é autotradução com o artigo  Autotradução: parte tradução, parte autoria. A notícia da perda de João Ubaldo Ribeiro também repercutiu na imprensa internacional, como nos canais alemães Spiegel Online (Brasilien: Schriftsteller João Ubaldo Ribeiro ist tot) e Deutsche Welle (Brasilianischer Schriftsteller Ribeiro ist tot), no português , no norte-americano Fox News Latino (Brazilian writer Joao Ubaldo Ribeiro dies) e no português Público (O escritor brasileiro João Ubaldo Ribeiro morreu no Rio de Janeiro). Também lamentaram sua perda os jornais alemães Frankfurter Rundschau e Die Zeit, com os quais o escritor colaborava com artigos periódicos.

não resisti e me ofereci para fazer a tradução. Não tinha nenhum prestígio para eles pagarem um tradutor altamente qualificado, e assim mesmo era difícil de achar, porque aquele livro é difícil até para muitos brasileiros, quanto mais para um americano, mesmo que saiba bem português. Aí fiz a tradução, foi terrível, mas fiz. Em seguida, por uma razão semelhante, fiz a tradução de Viva o povo brasileiro. Não se achava tradutor para aquilo, e meu agente, que é muito amigo meu, Thomas Colchie, me convenceu que talvez eu fosse a única pessoa capacitada a traduzir aquilo, e aí acabei traduzindo, mas não gosto não. Passei mais tempo traduzindo o Viva o povo brasileiro do que escrevendo o romance
Um estudo de tradução baseado em corpus da obra traduzida An Invincible Memory de João Ubaldo Ribeiro

Marcas no texto autotraduzido: o caso de João Ubaldo Ribeiro

AUTOTRADUÇÃO: O CASO DO ESCRITOR BRASILEIRO JOÃO UBALDO RIBEIRO E A VERSÃO DE SARGENTO GETÚLIO / SERGEANT GETÚLIO

João Ubaldo e a autotradução

BREVE HISTÓRIA DA AUTOTRADUÇÃO: OS CASOS DE ANDRÉ BRINK E JOÃO UBALDO RIBEIRO

O estilo do autor em Viva o povo brasileiro e do autotradutor em An invincible memory

Não perca também este artigo do autor sobre uma de suas viagens à Paris, onde diz que não foi xingado ou teve que enfrentar o mal humor dos franceses em 1998, e não deixe de ler sua obra hilária sobre o tempo que passou na Alemanha: Um Brasileiro em Berlim.

Leia interessante biografia do autor aqui e aqui seu artigo bservações de um usuário acerca do uso da língua aqui.

Livro 
O respeito pelo original – um estudo da autotradução a partir do caso de João Ubaldo Ribeiro, de Maria Alice Gonçalves Antunes

Um fato interessante em sua carreira é que o senhor traduziu uma de suas obras, Sargento Getúlio, para o inglês. Qual é a história por trás desta tradução: foi falta de confiança nos tradutores estrangeiros ou algo inusitado?

Não, eu traduzi dois. O Sargento Getúlio foi o primeiro livro traduzido, é uma história muito comprida, mas acabou batendo em uma editora que, acho eu, nem mais existe, a Houghton Mifflin, de Boston, uma editora respeitada, mas que fechou. Fechou não, foi absorvida por outra, sei lá. Essa editora encomendou uma tradução, aí me mandaram as 30 primeiras laudas, e estava uma coisa terrível. Então, como era meu primeiro livro no exterior, e logo nos Estados Unidos, após assinar o contrato com eles, choveram propostas do mundo todo para publicar o livro, e eu naquela empolgação, tinha 20 e poucos anos. Aí não resisti e me ofereci para fazer a tradução. Não tinha nenhum prestígio para eles pagarem um tradutor altamente qualificado, e assim mesmo era difícil de achar, porque aquele livro é difícil até para muitos brasileiros, quanto mais para um americano, mesmo que saiba bem português. Aí fiz a tradução, foi terrível, mas fiz. Em seguida, por uma razão semelhante, fiz a tradução de Viva o povo brasileiro. Não se achava tradutor para aquilo, e meu agente, que é muito amigo meu, Thomas Colchie, me convenceu que talvez eu fosse a única pessoa capacitada a traduzir aquilo, e aí acabei traduzindo, mas não gosto não. Passei mais tempo traduzindo o Viva o povo brasileiro do que escrevendo o romance. 
Seus livros foram traduzidos para vários idiomas, mas nossa literatura ainda é pouco lida fora, no mercado de língua inglesa, principalmente nos Estados Unidos. Como tem sido a recepção de seus livros fora do país? Quais são os lugares em que sua literatura é mais aceita?

A recepção dos meus livros, criticamente, geralmente é boa, com exceção do Viva o povo brasileiro nos Estados Unidos. O Viva o povo brasileiro já nasceu um pouco errado, porque não se pagam as resenhas pelo número de páginas do livro, então acho muito compreensível que um americano, numa quinta-feira em Nova York receba, para escolher para resenhar, vamos dizer, oito livros, só podendo resenhar um. Ele olha aquele tijolo — vindo de um país cuja capital é Buenos Aires e onde se fala também francês — e na sua mesa tem outro livrinho ótimo, de um alemão fantástico que está na moda em Berlim, de 180 páginas. Você acha que ele vai encarar as 700 páginas do Viva o povo brasileiro? O pagamento é igual, então ele não encara. E, além de tudo, não gostaram do livro. Enfim, meus livros nos EUA não fizeram o mínimo sucesso, inclusive o New York Times Book Review deu uma esculhambada no romance, o que fez o deleite de muitos brasileiros. É engraçado isso, de vez em quando alguém me dizia assim, com uma cara compungida, “seu livro foi esculhambado no New York Times, que coisa”. Eu ouvi isso umas três ou quatro vezes e aí elaborei uma respostinha. Quando sentia essa hostilidade velada, esse veneno quase explícito, eu dizia “é verdade, mas e você, quantas vezes foi esculhambado no New York Times?” Dá um certo status. Mas, engraçado, meus livros se dão muito bem em países nórdicos. Na Holanda, já ganhei até prêmio, homenagens, saiu praticamente tudo que escrevi, em varias edições. Viva o povo brasileiro lá, que se chama Brazilië, Brazilië, sai reeditado praticamente todo ano, o que é uma coisa raríssima. Um dos personagens do livro, o caboclo Capiroba, meu personagem antropófago, acha muito melhor comer holandeses de que comer portugueses e espanhóis. Prefere muito a carne holandesa, e os holandeses adoram essa historia deles serem mais gostosos para comer, literalmente, do que os portugueses e espanhóis, de quem, aliás, eles nunca gostaram. Na Alemanha também, meus livros são bastante editados e lidos. Na França, sou conhecido pelo mundo acadêmico, editado prestigiosamente pela Gallimard. Enfim, minha obra está no mundo todo, está na Europa inteira, acho que só não na Grécia e no leste europeu. Mas os lugares onde meus livros são mais aceitos são Alemanha e Holanda e, criticamente, na França.  (Fonte: Entrevista: João Ubaldo Ribeiro)


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