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Um robô vai roubar seu trabalho de tradutor?

Imagem: Alex Knight

✎ Por Janaina de Aquino

Uma matéria publicada no El País Brasil aventa a probabilidade de que nossos empregos sejam prejudicados pela automatização.

Curiosa, pois tenho formação em bacharelado de tradução pela Universidade de Brasília, um mestrado não concluído em localização na mesma universidade, e, atualmente, estudante de computação na Universidade de Tübingen, Alemanha, onde tenho acompanhado e aprendido sobre os avanços e efeitos da aprendizagem por máquinas complexas, resolvi verificar o “risco” de automatização da profissão de tradutor e intérprete. O resultado foi de uma margem de 38%, com a qual, a página sugere, deveria começar a me preocupar.
O assunto é extenso e não pretendo debater muito a respeito nesta postagem em si, apenas trazer algumas poucas reflexões.
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Uso a internet desde 1996. Antes dela, já tinha computador em casa, usado para brincar com a tela que veio se popularizar no filme Matrix. Os programas e as páginas virtuais eram parcialmente traduzidos à época, portanto, testemunhei a evolução de sua localização (que chegou a ser parte do tema da minha tese de mestrado). No decorrer dos anos, também vi o surgimento e crescimento do Google Tradutor. E não foi pouco. Há muito ainda o que melhorar, claro, mas a ferramenta já atende a maior parte das necessidades de uma média de 200 milhões de usuários por mês, segundo dados da empresa, cobrindo cerca de 99% das línguas do mundo.




Tudo isso, não somente, mas em grande parte, eu diria, graças à ajuda dos próprios usuários. Segundo o Google, mais de três milhões de usuários já contribuíram com 200 milhões de palavras traduzidas. Recentemente, atribui à revisão de tradutores “certificados”.

Nos fóruns de discussão de que faço parte já foi sentenciado que a substituição de humanos pela tradução automática está longe de se tornar realidade. Eis aí um pensamento genuíno, de autopreservação até, mas sobretudo muito otimista ou preso em um universo paralelo. A conjuntura atual mostra que — leia-se, por ora não plena — a transição é tão concreta quanto está bem debaixo dos nossos narizes.
O corretor de texto, o GPS do seu carro, a sugestão de Emojis a partir das palavras que você digita na sua conversa de bate-papo são amostras de um tipo de tecnologia cujos componentes estão incorporados a um programa de tradução automática. Resultados mais segmentados aparecem na forma de produtos e programas capazes de serem baixados em seus tablets ou smartphones, mesmo acoplados ao seu ouvido ou à sua visão para verterem, instantaneamente, uma língua para outra. E o público em potencial não abrange apenas viajantes, mas pacientes e médicos, juízes e réus, assistentes sociais e refugiados.
A qualidade, obviamente, continua aquém do perfeccionismo humano, mas, afirmo, consciente da polêmica que possa causar, a partir de uma visão de insider, isto é, cada vez mais por dentro de como as máquinas aprendem a reconhecer e se expressar tais quais seres humanos, que o caminho, embora longo, está sendo percorrido a passos largos pela simbiose entre tecnologia e linguística.
Antes de mais nada, que fique bem claro: a tradução automática não constitui uma ameaça (iminente). Longe de mim pleitear um mundo de Transformers, Blade Runners, Exterminadores do Futuro, Halls, Ex-Machinas… sendo bem realista, trato unicamente do prenúncio de que a competição ficará cada vez mais acirrada.
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Desde que se popularizou o jargão “usa o Google Tradutor”, é perda de tempo bater boca com tais interlocutores… Quem usa a ferramenta está consciente das suas limitações atuais, mas, não deixa de ficar satisfeito (e surpreendido) com o trabalho que ela pode oferecer. Argumenta-se: “dá para entender o significado geral do texto”. Em situação que se requer maior sofisticação, basta recorrer aos serviços dos prestadores humanos. De resto, a compreensão de receita de bolo, reservas em hotel internacional, interação com estrangeiros, postagens nas redes sociais, leituras de placas e afins são muito bem resolvidas por Bings (antigo Yahoo! Babel Fish) da vida.
O presente cenário é o seguinte: imagine um supermercado equipado com caixas robotizados e humanos — alguns clientes, por questões de velocidade e praticidade, dirigem-se diretamente para o sistema de atendimento automatizado, que desempenha sua função dentro do esperado; outros, preferem passar pelo atendente humano, seja porque têm um volume maior de compras, porque não confiam plenamente ou não têm familiaridade com os leitores eletrônicos ou simplesmente tiveram problemas técnicos com o sistema anterior. Por enquanto, existe um fracionamento mais ou menos equilibrado entre os dois tipos de “atendimento”. O que se percebe nos últimos tempos, contudo, é que o fluxo na fila dos primeiros têm aumentado consideravelmente.
Os colegas que advogam fervorosamente em prol da tradução feita por humanos podem arrazoar que o exemplo com caixa de supermercados é infeliz, uma vez que este ramo da sociedade tem 97% de chances de perder o emprego para uma máquina, segundo a Will Robots Take My Job?afinal, o processo de tradução envolve criatividade e subjetividade humana. Bom, se ainda considerarmos os dados da referida página, a profissão de designer, por exemplo, que usa tanto inventividade quanto a de tradução, corre meros 8,2% de risco de perder uma proposta de emprego para um "ser" com inteligência neural. Isso considerando que o Google, sempre ele, tem usado rabiscos dos usuários para ensinar sua inteligência artificial a desenhar sob o pretexto de aperfeiçoar quem não tem a menor habilidade nessa área. O que a ferramenta está fazendo, na verdade, é o mesmo que o Google Tradutor fez quando abriu a opção de correção pelos usuários: aprendendo com base na experiência de humanos.
E olha que as bichinhas aprendem rápido.
Hoje, um programa de inteligência artificial da IBM entende mais da obra de Portinari do que eu e você. Este é o futuro. Um cientista da Microsoft anunciou ontem mesmo que aplicativos sem inteligência vão simplesmente desaparecer — em outras palavras, perder espaço no mercado.
Daí fica fácil, não?
Hei de reconhecer que os principais “culpados” (ou colaboradores ) temos sido nós.
Quando conversamos com a Siri da Apple ou Alexa da Amazon, duas assistentes pessoais criadas a partir de inteligência artificial, que lançam mão de tecnologia de reconhecimento de voz (dentro da área de computação linguística), estamos contribuindo para que elas estudem e armazenem características do comportamento humano ao ponto de por vezes nos fazer rir, meio sem graça, meio perplexos, quão bem elas se saem em suas respostas. (Acredite: tem um bando de cientistas lá fora trabalhando pesado para que sejam cada vez melhores.)


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