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Torne-se um Tradutor Global

Como disse na outra postagem, preparei alguns textos sobre agir profissionalmente e algumas maneiras de apresentar seus valores praticados para um cliente mediante uma proposta de tradução. Todos que têm contas para pagar precisam ter esse tipo de preocupação: dinheiro. Afinal, estamos concedendo nossas habilidades, que são linguísticas, cognitivas etc. por meio do nosso conhecimento como qualquer outra profissão e precisamos ser financeiramente recompensados por isso.
Mas há outra questão. Acredito, veemente, que também podemos emprestar nosso conhecimento. Emprestar solidariamente, afinal conhecimento em um bem intangível, impossível de ser usurpado. Claro que há quem roube direitos autorais, mas de qualquer forma, o conhecimento é seu. Meu ponto é: imagine que um dia acontece uma tragédia com a qual você perde tudo que construiu com seu, árdua e dramaticamente falando, próprio suor: casa, trabalho, família e amigos. Tudo por causa do dinheiro. No entanto, se você ainda tiver conhecimento, poderá reconstruir sua vida de volta ao que (ou bem próximo) era antes.
Acha que estou exagerando? Tenho um caso exemplar: “Mauá, o empresário do império” (para saber mais, veja o filme e/ou leia livro). Mesmo depois de ter sido esgotado psicológica e financeiramente pelo império brasileiro (dizem as más línguas que cedeu até suas próprias roupas para pagar as dívidas, ficando apenas de ceroulas), terminou a vida em um pedaço de terra que conseguiu comprar depois de recomeçar todo seu trabalho. Não sabe quem é? Pois, em suma, foi ele quem iniciou a indústria naval no país, foi o primeiro a instalar iluminação a gás no Rio de Janeiro (1854) e abdicou de escravos muito antes do contrato pomposo da Princesa Isabel, tendo-os como trabalhadores antes mesmo do PT pensar em nascer.
Isso demonstra que o dinheiro também é resultado do conhecimento. Tudo parece ter começado quando alguém, cansado das trocas comerciais baseadas no peso dos produtos, teve a brilhante ideia de falar, “peraí, não dá mais para trocar 5 quilos de batata por 20 quilos de pena de ganso. Vamos criar aqui as moedas, ali as cédulas...”. Sem entrar no mérito da questão dos efeitos adversos que a sede por dinheiro trouxe, é inegável que facilitou nossas vidas. Graças ao conhecimento. E como nossas vidas são um constante toma lá dá cá (qui pro quo), devemos não só vender, mas também compartilhar conhecimento.
Por isso lhe apresento a ideia do Global Lives Project, um projeto sem fins lucrativos que conta com cineastas, programadores, designers, artistas, tradutores e pessoas do cotidiano que aceitaram sair um pouco do seu mundinho para trabalhar voluntariamente em prol da disseminação e integração entre as diferentes culturas ao redor do globo.



Com a colaboração voluntária desses grupos, o Global Lives Project documentou um dia (24 horas) da vida de dez pessoas que representam a diversidade e comunidades. A seleção dos participantes foi feita através de alguns critérios interessantes.
Por exemplo, em termos geográficos, a equipe do Global Lives considerarou que 61% da população mundial vive na Ásia, o que equivale a seis asiáticos para cada habitante das outras quatro grandes regiões do planeta: América do Norte, América do Sul, África e Europa.
Além disso, levaram em conta que metade da população mundial vive na zona rural e metade na zona urbana, então foram selecionados 5 pessoas de cada zona. Isso também se aplicou à divisão por gênero, que foi representada por 50% do sexo feminino e 50% do sexo masculino.
Foi realizada, ainda, uma pesquisa pormenorizada para selecionar dez pessoas cujos rendimentos representam a distribuição de renda mundial. Também foi considerado o que a equipe do Global Lives chama de a “verdadeira” distribuição religiosa e de faixa etária no planeta, assim 6 dos 10 participantes têm menos de 30 anos e são ateus ou seguidores ou do budismo, cristianismo, hinduísmo ou islamismo, entre outras.
Foto: Global Lives Project
Com essas informações, a equipe chegou um perfil para encontrar seus participantes, que devem caracterizar uma região do globo, e produzir os vídeos. No Brasil, a filmagem foi feita em 2006 com Rael Feliciano, mais conhecido por seu apelido “Rael”, nascido e criado em São Paulo. Fortemente influenciado por seu pai, Rael é músico e líder do grupo de hip hopPentágono”, da periferia sul da cidade. Desde o início de 2006, Rael tem trabalhado como uma espécie de inspetor, cuja função é impedir o comércio ilegal de rua.
Depois de prontos, os vídeos são exibidos em museus, salas de aulas e espaços públicos ao redor do mundo. Qualquer pessoa pode assistir ou baixar os vídeos aqui ou, ainda, contribuir com a crescente biblioteca de vídeos registrando a experiência das vidas humanas no www.globallives.org.
E é precisamente aqui que convido você, tradutor, a participar.
Tal qual um dos princípios basilares da tradução, o Global Lives Project defende que ao traduzir um dos vídeos, partilhando suas habilidades linguísticas com a comunidade do Global Lives, você estará mostrando para o mundo uma língua, uma cultura e uma realidade que de outro modo poderiam permanecer remotas e inacessíveis.
Simulação da instalação
com os vídeos produzidos pelo Projeto.
Como tem sido enfatizado aqui, trata-se de um trabalho 100% voluntário, sem possibilidade de futuras recompensações financeiras. O que Global Lives oferece a todos os tradutores que completarem 15 minutos de transcrição e tradução, além da oportunidade de divulgar a sua própria cultura, é um DVD trilíngue do Projeto com filmagens feitas em Maláui, Japão, Brasil e Estados Unidos. Também, se ainda estiver de pé, há a proposta de ter seu nome nos créditos do DVD, nas instalações onde forem exibidos os vídeos e na página online do Projeto. Caso prefira apenas traduzir ou transcrever, há a opção de fazer 30 minutos de uma dessas modalidades, se ainda houver tempo do vídeo para isso. No momento, estão sendo recrutados tradutores para os pares de inglês, português, japonês ou todas as línguas.
Até agora, já foram traduzidos aproximadamente 80% do japonês para o inglês, do vídeo feito com Rumi Nagashima; o vídeo de Edith Kapuka também está quase completo, com cerca de 70% traduzido da língua cinianja para o inglês; com a minha e a sua participação, ultrapassaremos os quase 15% do vídeo de Rael Feliciano já foi traduzidos do português para o inglês; por fim, a filmagem com James Bullock, que pede a tradução do inglês para o japonês, ainda não foi traduzido. Se souber de alguém que poderia fazer esse trabalho, por favor, indique.
Para participar, o voluntário precisa preencher um formulário (disponível aqui) e terá o prazo de duas semanas para entregar o trabalho. Pela natureza do trabalho e tendo em vista que já temos nossas ocupações regulares e obrigatórias, fui informada que esse prazo pode ser flexibilizado. Também será necessário manejar o programa DotSub demo, o que, aparentemente, não parece ser difícil (para quem trabalha com legendagem, realmente parece ser tranquilo).
Não é preciso se preocupar (como me preocupei) com a estilística, uso de termos, isto é, medo de que, visto que cada um faz um pedacinho, o trabalho final fique uma verdadeira salada. O Global Lives preparou um manual de estilo de tradução próprio para deixar o texto mais uniforme.
Além disso, para quem já consome normalmente seu tempo no Facebook, a maior parte das atividades do Global Lives se concentra na rede social, onde há uma página especial para o grupo dos tradutores e dos países filmados até agora.
É basicamente isso. Ao enviar o formulário, muito em breve um representante do Projeto entrará em contato via e-mail para acertar os detalhes da sua participação. Não deixe de participar. Tive um professor americano na faculdade que dizia que devíamos ser cidadãos do mundo. Embora a disciplina fosse “Culturas e Instituições Norte-Americanas”, ele insistia, positivamente, em falar dos outros países, principalmente do México. Entendo que o mundo não é uma aldeia global plena, mas podemos ajudar a sê-la.
Uma das minhas birras com a universidade pública é que, dificilmente, retornamos para a comunidade o investimento que ela faz em nós. Pelo contrário, pegamos nosso gracioso diploma, empossamos os melhores cargos, nos afastamos da comunidade periférica e vivemos nossa vida achando que não devemos nada a ninguém. Esta é uma discussão chata e complexa e não vamos nos delongar nela, mas ressalto que, de alguma forma, temos que retribuir, em um raio de alcance mais próximo ou mais distante, o investimento financeiro e cultural que a comunidade local e mundial fez por nós. Então, tradutores, uni-vos, e faça essa caridade ao mundo: compartilhe conhecimento.
Caso tenha realmente se entusiasmado com a ideia, aqui há mais alguns projetos voluntários esperando por você. Você também pode visitar o Babels “uma rede internacional de intérpretes e tradutores voluntários, cujo principal objetivo é cobrir as necessidades dos Fóruns Sociais”. Visite regularmente, pois, acredite, quanto mais você ajuda, melhor você se sente.

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